Domingo, 26 de Abril de 2009
Final Feliz

Floribella foi e sempre será um marco na história da ficção nacional. Projectou nomes como os de Luciana Abreu, Diogo Amaral, Diogo Carmona, Catarina Cardoso, Tiago Barroso, Marco Medeiros, entre muitos outros. Com estreia em Março de 2006, o conto de fadas depressa se tornou num hit nacional. Quem não conhecia os famosos versos

Não tenho nada, mas tenho, tenho tudo
Sou rica em sonhos e pobre, pobre em ouro
Hoje, mais de três anos depois da sua data de estreia, Floribella continua a fazer muitos sonhar. A própria protagonista já admitiu que não se importaria de protagonizar uma terceira temporada.
Assim, e como me foi pedido para publicar mais um final alternativo para a primeira temporada, deixo aqui a história que Flor e Frederico teriam vivido, não fosse o Príncipe ter o destino que teve. O final é da autoria da 6cbrilhante:
 
Flor e Fred: o Final Feliz
 
Já havia passado um ano desde que Flor e Frederico se haviam conhecido e vamos
deparar‐nos com eles a fazer as malas para partir para Roma. É que, nessa manhã, Fred tinha “destruído” a casa de Lourenço, pois aí tinha encontrado toda a verdade. Assim, acabara tudo com Delfina.
Pouco depois, Flor havia saído para o sítio onde combinara encontrar‐se com
Frederico.
Nesse momento, Delfina falava com Magda e Lourenço.
‐Bebecas, a menina desta vez passou dos limites! Se tivesse cuidado com o estúpido do
Frederico e com a criadita isto não tinha acontecido – dizia Magda para a filha, furiosa.
‐Mas, mamã, quem registou tudo foi esse hippy, nojento e
piolhento – afirmou Delfina, com os olhos banhados em lágrimas, olhando para Lourenço.
‐Bebé, foste tu que causaste tudo isto – retorquiu
Lourenço, com a sua voz de galã malicioso.
‐Mas…
‐Nem mas nem meio mas. O que a menina está é a enlouquecer. Lourenço, ligue para
o manicómio e mande‐os vir buscá‐la.
Então, Delfina foi levada para o manicómio e Magda e Lourenço foram para longe
caçar mais fortunas, deixando em paz os Fritzenwalden.
Passados cerca de cinco minutos, Frederico sai de casa, disposto a não largar Flor nunca mais. Já tinha andado uns 500 metros quando alguém, com a cara tapada, o agarra para um beco escuro. Teria gritado se o tal indivíduo não lhe tivesse encostado uma navalha à garganta.
‐Mas o que… ‐ começa Fred a dizer, mas era tarde demais, pois o mascarado tapou‐lhe as vias respiratórias com um pano embebido em clorofórmio, tendo desmaiado.
Flor estava preocupada. Já tinha passado meia hora desde a hora prevista para se encontrar ali com Frederico, quando o telemóvel toca. Era Afonso.
‐Afonso? O que se passa?
‐Flor, tens de vir urgentemente para casa.
‐Mas eu estou à espera do teu irmão. Imagina que ele não me vê cá, hum?
‐É sobre ele. Não te posso dizer ao telefone. Vem rápido para casa – desliga.
Flor ficou intrigada. O que quererá Afonso dizer‐lhe? Volta, então, para casa. Se o assunto é sobre Frederico, é de urgência máxima.
Mal abre a porta de casa, Helga diz‐lhe, desolada:
‐Florribêllá! Ainda bem quê meniná veio rápido! Oh mein got! Como lhê explico o quê
acontêcêu?
‐Desembucha, Helguinha. O que se passa com o meu príncipe?
Helga mostra‐lhe um bilhete:
Se querem voltar a ver o Frederico vivo arranjem assim que possível
50.000.000€, numa mala fechada, e coloquem-na, ao pôr-do-sol,
na Alameda D. Afonso Henriques. Ah, e nada de polícia, pois assim
o Frederico é devolvido, mas em cadáver. Ah ah ah ah!
‐Mêninos estarr na bibliotêcá a dêcidirr o quê fazerr.
Flor não queria acreditar. Cada vez que ela e Fred iam finalmente ser felizes juntos, acontecia algo e já não podiam. Os seus olhos estavam banhados em lágrimas, mas pensou
«Não serve para nada estar aqui a chorar. É preciso agir.»
Chega à biblioteca e diz a todos:
‐Meninos, duvido que estejam a pensar o mesmo que eu, mas eu acho que o resgate não é a única solução. Também há outras, sem a polícia.
‐Qual? – Pergunta Martim – É que estamos com uma neurodepressão causada por um desastre de origem afectiva que não temos cabeça para nada!
‐O que é que ele disse? – Perguntaram, em coro, Rosa e Tomás.
‐Que isto deixou‐nos a todos nervosos – respondeu Flor. – E também não vale estar aí a chorar sem fazer nada. Aí é que não há solução, mesmo! Bem, o que eu estava a pensar é que não pagássemos o resgate, que fôssemos à procura dele e que o libertássemos.
‐O quê!? – Exclamaram todos em coro.
‐Eu não vou nessa – disseram, em coro, Henrique e
Afonso.
‐Para esse plano não contes comigo – disse Maria.
‐Isso podia arriscar ainda mais a vida do Fred – acrescentou Martim.
‐Nós vamos! – Exclamaram Tomás e Rosa.
‐Vocês não, meninos, que são muito pequenos. E, além disso, são alvos vulneráveis.
‐Mas, Flor, nós lá nos escuteiros fazemos acampamentos e raides, principalmente à noite, e…
‐Nem mas nem meio mas. É para ficarem. Sendo assim, vou eu sozinha.
A primeira ideia foi chegar ao local indicado pelo raptor e esperar que viesse alguém.
Bingo! Pouco depois de o sol se pôr, um indivíduo de comportamento suspeito foi ver se lá havia algo. Na mão tinha um telemóvel, que por acaso deixou no banco público. Pouco depois de se afastar, Flor liga desse telemóvel para o seu. Depois, com o número de telemóvel do suspeito, foi procurar na lista telefónica.
Passou a noite toda à procura de informações. Só se foi deitar por volta das 4:00h, quando descobriu “Gonçalo Silvestre, Rua do Pessegueiro, 13B, Ericeira”.
No dia seguinte, foi a essa morada e perguntou pelo dono. Uma vizinha disse que ele se tinha mudado para o norte, há cerca de um mês. Flor pensou bem, e viu que era tempo suficiente para preparar o golpe.
Nessa tarde, deixou o telemóvel do suspeito exactamente onde o encontrara, não se fosse dar o caso de suspeitarem dela.
Já em casa, encontrou o fio que havia trocado com Frederico como aliança, no seu casamento secreto. Enquanto o punha, lembrou‐se de que a velha promessa de Frederico, a de que iam ficar juntos, dependia agora só dela e de que, apesar de tudo, a única coisa que pode mover montanhas é a fé no amor.
Nessa noite, sonhou que ela e o raptor de Frederico estavam a jogar xadrez e, a certa altura, Flor tinha um objectivo apenas defensivo, defendendo o seu rei apenas com três peões, uma torre, um cavalo e com os dois bispos. Apesar de tudo isso, ao fim de muitas e muitas horas de jogo, ela acabou por vencer.
Acordou sobressaltada. O que queria dizer aquele sonho? Apareceu‐lhe uma das suas fadinhas que lhe disse:
‐Preservera, preservera, preservera e vencerás – e desapareceu.
Como habitualmente as fadinhas de Flor eram pouco claras, desta vez foram mais claras do que a luz do Sol.
Acabava de amanhecer. Fez as malas e partiu para Gaia, a sua cidade natal,
hospedando‐se em casa de Joana, uma amiga de infância.
Na primeira semana, não encontrou nada acerca do seu príncipe. Até que…
Numa noite, Flor acordou com algo muito suspeito no quarto acima do seu.
Era uma cadeira a ser arrastada, mas devia transportar algo muito pesado, a ser colocada no lugar. O que transportava devia ser uma pessoa raptada, pois o seu esforço para se desamarrar fazia balouçar a cadeira, ouvindo‐se no andar de baixo, tal como também se ouvia a tal pessoa a tentar gritar, apesar da mordaça.
Todas as noites à mesma hora, ouvia‐se tal barulho. Dois dias depois, Flor ouviu “porcaria de milionários”. Ficou alarmada. Fred possuía uma enorme fortuna em dinheiro, títulos de Bolsa, empresas e propriedades!
Na semana seguinte, ouviu: “Só por seres de raça germânica achas‐te melhor que os outros, hein?”. Voltou a alarmar‐se. Não eram os Fritzenwalden uma família de origem alemã? Desta vez o seu fio brilhou um pouco.
Passados cinco dias, ouviu algo muito mais claro: “Detesto‐te a ti e aos teus maninhos, Fritzenwalden. Nem quando o teu maninho
Tomás supostamente foi raptado decidiram pagar o resgate”.
Bingo! Frederico era o mais conhecido de todos os
Fritzenwalden e, pouco tempo antes de Flor ir trabalhar lá para casa, Tomás fugiu de casa, deixando um bilhete exigindo um resgate para dar a ideia de que fora raptado, e escondeu‐se
na casa de Flor, incriminando‐a. E agora o fio voltou a brilhar, com mais intensidade.
Na noite seguinte ouviu um grito:
‐Eras capaz de desligar esse fio? De cada vez que digo alguma coisa sobre ti ou sobre a tua família essa porcaria farta‐se de brilhar e é capaz de nos revelar!!!
As palavras que faltavam. Flor levantou‐se, vestiu‐se, pegou na vassoura, para o caso de ser precisa, e foi para cima.
O seu fio, de cada vez que se aproximava mais, brilhava mais. Ao chegar ao andar de
 cima, bateu à porta e, mal esta foi aberta, bateu, com a ponta do cabo, na barriga do homem que a abriu. Flor entrou de rompante, mas foi alvo de quatro disparos, que falharam por um triz.
Foi fácil chegar ao quarto onde se passava tudo o que ouvia, era só ir como se fosse para o seu, mas um andar acima. O seu fio continuava a brilhar. E mal abriu a porta…
‐Frederico!
Era mesmo ele. O seu fio também brilhava. Correu a desamarrá‐lo, mas apareceu o homem que abriu a porta com a arma apontada a Flor.
‐Então vieste libertá‐lo, hein? Não vale a pena, porque agora tu é que te vais libertar do teu corpo.
Frederico sabia que o carregador da pistola só dava para oito tiros. Os quatro primeiros já haviam sido disparados na entrada. “Só” faltavam outros quatro.
Então Flor e Fred viram as fadinhas, que o libertaram e tiraram‐lhe a mordaça. O homem não viu nada, pois foram silenciosas e ele e o raptor estavam virados de costas um para o outro. Nesse momento, antes que Fred se pudesse levantar da cadeira, foi empurrado pelo homem que tentava atingir Flor, pois esta corria à volta do quarto.
Pum, pum, pum, pum, click!
Os quatro tiros “foram‐se à vida” e Flor saiu ilesa. Entretanto, o raptor fugiu, mas foi detido à saída do prédio pela polícia, que fora chamada por uns vizinhos que ouviram os disparos.
Nem necessitaram de apresentar queixa, pois Sebastião já o tinha feito. O homem, que era mesmo Gonçalo Silvestre, foi rapidamente julgado e condenado a uns bons anos de cadeia.
Flor e Frederico voltaram a casa no da seguinte. Passaram a tarde toda a contar a aventura, mas Fred tinha uma ideia.
‐Flor, amanhã despacha‐te cedo, porque é um dia especial –
disse‐lhe Frederico, antes de irem cada um para o seu quarto.
‐Mas porquê?
‐Amanhã vês.
No dia seguinte, apanham um táxi bem cedo que os leva ao aeródromo. Quando saem, têm um helicóptero à sua frente. Flor pergunta:
‐Tu queres enfiar‐nos outra vez na Ilha?
‐Só se não tivermos gasolina suficiente para chegar ao meu campo de girassóis –
responde‐lhe Frederico.
‐Amo‐te – e beijam‐se.
‐Vai entrando que eu vou buscar umas coisas ao táxi.
‐Está bem, meu príncipe.
Pouco depois, levantaram voo.
Chegaram sem problemas. Flor ficou deslumbrada com aquela paisagem: girassóis de todos os lados. Só havia mais um bosquezinho com um lago ao pé. Ao longe, via‐se uma pequena aldeia.
‐Se quiseres podes dar uma volta por aí, vai, mas não te afastes – diz‐lhe Fred.
‐Está bem, meu príncipe – responde, dando‐lhe um beijo.
Assim, enquanto Frederico preparava um bom piquenique, Flor foi dar uma volta.
Quando já estava tudo pronto, Frederico chamou Flor, mas ninguém respondeu.
Voltou a fazê‐lo uma segunda e terceira vez. Depois, decidiu procurá‐la.
Só lhe vinha à cabeça que Gonçalo se tinha evadido e raptado Flor. Olha à sua volta e, quando olha para trás, Flor salta para a sua frente, pregando‐lhe um valente susto.
Riram a bom rir e voltam para o sítio onde estava o almoço. Aí, Fred lembra‐se de que se esqueceu de algo no helicóptero e vai lá, voltando depois para se sentar ao lado da sua princesa.
Almoçaram num clima de grande romance. A certa altura, como “beijinho puxa beijinho”, Fred perde o controlo da situação, mas Flor não cede e pára. E avisa‐o:
‐Tem calma, Frederico. Por mim, eu só vou fazer essas coisas dos mais crescidos quando casar.
‐Está bem, eu respeito – responde‐lhe Fred. – Ah, já me esquecia. Flor, levanta‐te.
Flor fez o que Frederico lhe pediu, enquanto este se ajoelhou a seus pés e tirou uma caixinha do bolso
‐Flor – disse‐lhe ‐, tu queres casar comigo?
‐Claro, o que é que tu estavas a pensar, Frederico,
hein? – Responde‐lhe, beijando‐o apaixonadamente.
‐Flor, agora é que vamos mesmo ser felizes para sempre.
‐Mas as bruxas…
‐Mas as bruxas, nada! A Magda e o Lourenço foram para longe enquanto que a Delfina, embora não me queira alegrar da desgraça dos outros, está internada num manicómio.
‐Então, nada nem ninguém nos vai separar, meu príncipe.
‐Assim Será, até ao fim.
Os dias seguintes passaram a correr, com o regresso do cozinheiro (ups, “chef”)
Antoine, que não conseguia estar mais tempo longe da sua Helguinha, a autorização de Fred para Sebastião ir a Inglaterra ter com Maria, o regresso do Barão Franz e do irmão, o Padre
Wolfgang e com o gozo de Tomás e Rosa perante a “lamechice” de Flor e Fred, 24 horas por dia. E finalmente chegou o grande dia!
Henrique tratou da aparelhagem de som enquanto Afonso e Martim arranjavam e decoravam o jardim para a cerimónia. Na cozinha, estavam Helga e Antoine, e foi uma sorte nada se ter queimado, pois quando estão sozinhos passam o tempo somo se tivessem sido colados com Super Cola 3 ou algo do género. Franz também quis ajudar e, primeiro, verificou se estava tudo em ordem e, depois, recebeu os convidados. Wolfgang tentava arranjar ideias para a homilia observando tudo o que se passava. Por fim, Tomás e Rosa ajudaram, respectivamente, Frederico e Flor a arranjarem‐se. Tudo numa tal azáfama, pois a cerimónia era ao início da tarde.
Tal como previsto, os convidados começaram a chegar por volta do meio‐dia: Tita e
Raul, a banda, Maria e Sebastião, Dinis, Amélia e André, Verónica, Amália e Pascoal e Eduardo foram recebidos por Franz e ocuparam os seus lugares. O altar era à sombra da árvore de Flor.
Flor escolheu para seus padrinhos Eduardo e Tita, enquanto que Fred escolheu
Sebastião e Helga.
A cerimónia decorreu na normalidade. Destacam‐se pequenos pormenores como o
calçado de Flor (as suas sapatilhas da sorte) e o facto de Tomás e Rosa, os “meninos das alianças”, trazerem a bandeja com as alianças enquanto discutiam sobre as notas de
Matemática, o que colocou toda a gente a rir. Também é de realçar o facto de Flor e Frederico terem trocado o habitual
“até que a morte nos separe” por um “eternamente” e de, quando se beijaram, a árvore ter deixado cair folhas em cima deles.
No final da cerimónia, Fred foi ter com os miúdos:
‐Meninos – disse‐lhes ‐, o que se passou? Não vos vi durante a cerimónia senão quando trouxeram a bandeja das alianças, o Antoine disse‐me que faltavam muitos doces, ou seja, que alguém os tirou, e agora vocês estão todos sujos.
‐Desculpa, Fred – disseram em coro.
‐Eu só vos desculpo se me derem um abraço.
Os miúdos abraçaram Fred.
‐E agora, já p’rá festa! 1,2,1,2!
‐E vamo‐nos empanturrar mais ainda!
O almoço foi divinal. Antoine fez um novo prato que todos adoraram, embora Tomás tenha dito:
‐Se estivesse mais picante, aí é que eu gostava mesmo.
Rosa, Martim e André riram‐se, divertidos, enquanto Fred os olhava, furioso, pelo canto do olho, embora disfarçado. Tinham percebido o que Tomás queria dizer com aquilo.
O bolo também estava lindo: branco como a neve, macio como um cobertor, a decorar a habitual estatueta dos noivos e, para finalizar, num canto os miúdos escreveram, com
smarties, Flor e Fred 4ever.
Pouco antes das cinco, Fred e Flor saíram da festa e foram mudar de roupa. Saíram já
“à paisana” e com as malas feitas, pois um táxi esperava‐os ao portão. Iam partir, em lua‐de mel, para a Alemanha!
Já eram cerca das dez horas da noite (hora de Berlim) quando chegaram. Foram deixar
as malas ao hotel e Flor ficou perplexa.
‐Bem, ainda só tinha visto um quarto tão grande como este naqueles filmes que passam à uma da manhã – diz, espantada.
‐É grande, não é? Eu sabia que a princesa ia gostar – responde‐lhe Frederico, com “aquele” ar atrevido.
‐Convencido, o príncipe. Mas bastava uma barraca no meio da selva, desde que estivesse sozinha contigo, que eu ficava contente – beija‐o.
Depois, meteram as malas a um canto e desceram para irem jantar a um restaurante ali ao lado, onde Frederico já havia estado várias vezes. Flor ficou um pouco impaciente por
Fred ter‐se demorado imenso na recepção do hotel, mas perdoou‐o ao ver que tinham o restaurante só para eles.
Jantaram à luz das velas para terem um ambiente mais romântico. Por isso, nem
repararam que, na rua, houvera um corte de luz.
Então Frederico diz:
‐Já disse que te amo, hoje?
‐Não – responde‐lhe Flor.
‐Então, ich liebe dich.
‐O quê?
‐É “amo‐te” em alemão.
‐Tu nunca me tinhas dito isso assim.
‐Disse agora – beijam‐se.
Pouco depois, regressaram ao hotel.
Ao regressarem, quando Fred abre a porta do quarto, Flor fica espantada. O quarto estava cheio de velas brancas, beges, rosas e vermelhas e, no chão, um tapete de pétalas de espécies de flores diferentes, em forma de coração, sobressaindo em pétalas de rosas vermelhas, as palavras “Amo‐te Flor”.
‐Mas como é que isto veio aqui parar? – Perguntou Flor. – Não podes ter sido tu.
Estiveste comigo o tempo todo!
‐Lembras‐te de eu demorar‐me lá em baixo antes do jantar? Estava a pedir para te prepararem isto! – Respondeu‐lhe Frederico.
‐Oh, meu príncipe, isto está tão lindo! Acho que nem os decoradores profissionais do mundo inteiro em conjunto faziam melhor. Tu és mesmo como uma parede de pedra bem fria, mas que por detrás há uma fogueira bem viva.
‐O que é que queres dizer com isso?
‐Quase toda a gente diz que tu és mesmo um Fritz Congelado, ou seja, só vêem a parede de pedra fria, fria, fria. Mas depois de te conhecer bem tu revelas aquele fogo bem ardente que há em ti.
‐Não, flor, tu é que me “acendeste” a tal fogueira.
‐Isso é que não, Frederico. Tu tinhas meia dúzia de brasas acesas. Depois foi só fazer o que ninguém se tinha lembrado. Foi só deitar uma garrafinha de álcool que tu ficaste completamente descontrolado.
‐Descontrolado?
‐Sim, descontrolado. Ou já não te lembras de tudo o que armaste no dia antes da peça de teatro? E quando me convenceste de que estávamos numa ilha deserta só para estarmos juntos e sozinhos? E quando deste cabo da casa do Lourenço só porque tinhas descoberto a verdade? E quando “perdeste o controlo da situação” na semana passada?
‐Ah, está bem. Mas agora isso não interessa nada. Agora estamos juntos e nada nem ninguém… ‐ E Flor começa a cantar:
‐“Vai separar um grande amor que o coração tanto esperou…”
‐“E Assim Será.” – Terminaram ambos a cantar.
‐Por isso – continuou Frederico – estamos livres para fazer o que bem nos apetecer, sem as bruxas a chatear…
‐ E por falar em apetecer, quando é que vamos dormir? Já estou cá com um sono…
Olha para as horas: 23:30! Quando? – Perguntou Flor, bocejando.
‐Depois disto.
Então beijaram‐se. Mas não foi um beijo qualquer. Nunca se tinham beijado assim: este foi mais intenso, mais profundo e mais perpétuo do que qualquer outro (até bateu claramente o recorde da passagem de ano!). Assim, envolvidos, entregaram‐se um ao outro, até mais nada existir, senão eles e o Amor que sentiam mutuamente, acabando por adormecer abraçados.
No dia seguinte, Flor e Frederico acordaram nos braços um do outro com uma cara de felicidade que jamais alguém lhes tinha visto.
Frederico acordou primeiro, mal os primeiros raios de sol entraram pela janela. Ficou mais um pouco a olhar para Flor, com um ar embevecido que parecia dizer: “Eu cá fico aqui o resto da minha vida.” Depois, ligou para o room service. Passados uns minutos, levanta‐se e recebe algo, e começa a preparar uma bandeja com tudo o que Flor gostava: sumos naturais,fruta, iogurte, bolachas, chocolates… E volta para junto dela.
Pouco depois, Flor acorda.
‐Bom dia, meu príncipe – diz Flor.
‐Bom dia, princesa – responde‐lhe Fred.
‐Frederico, eu estou aqui tão bem nos teus braços que dava tudo só para ficar aqui contigo o mais tempo possível.
‐Pois… Isso também eu, mas o que importa é o agora e nada nem ninguém nos vai chatear. Só estamos cá nós os dois e… Já disse que te amo hoje?
‐E eu já disse que te amo muito, muito, muito?
Beijam‐se.
‐E agora, levantar, para ir p’ra baixo tomar o pequeno‐almoço! – Flor tenta levantar‐se,
mas Frederico impede‐a.
‐Calminha, mas a minha princesa não vai a lado nenhum. Agora ficas aqui que eu pedi
para trazerem cá o pequeno‐almoço – diz Fred, pegando na bandeja com o pequeno‐almoço.
‐Se continuas assim, olha que eu fico muito mimada e depois já não me consegues aturar.
‐Não te preocupes, que este príncipe vai estar sempre aqui para aturar a sua princesa, mesmo que ela seja chata, mimada e rabugenta.
Tomaram o pequeno‐almoço no meio de muitos beijinhos, miminhos, enfim… Muita “lamechice”.
Mais tarde, saíram e passaram o dia no fantástico Jardim Zoológico de Berlim.
Passadas duas semanas chegou a altura de voltar a Portugal. Ao contrário da viagem
de ida, nesta Flor enjoou e, mal entraram no autocarro que os levariam do avião para o aeroporto…
‐NÃO!
Flor tinha desmaiado e não bateu em nenhum lado porque, por pouco, Fred a amparou.
Chamaram de imediato uma ambulância que os levou, primeiro, para o posto de primeiros socorros do aeroporto onde, para alívio de todos, Flor acordou.
‐Florzinha, tive tanto medo… Tanto…
‐Não precisas de te preocupar, que eu já estou bem – responde
Flor, levantando‐se.
‐Não, Flor, eu quero que te vejam só para ter certezas.
‐Está bem, meu príncipe – beija‐o.
Entretanto chega Henrique, que fora alertado pelos serviços aeroportuários para vir buscar as malas de Fred e Flor.
‐Então, o que é que se passou?
‐Foi só uma quebra de tensão – retorquiu Flor.
‐Pode não ter sido só uma quebra de tensão,
Flor, pode haver algo mais – corrige‐a Frederico.
‐Ah, é verdade, vocês têm uma legião de jornalistas à vossa espera. Parece que sabiam quando voltavam e vieram arranjar alguma capa para as suas revistas corderosa.
‐Olha, Henrique, quando saíres diz‐lhes para voltarem para as suas redacções e não publicarem nada se não quiserem problemas connosco,ou já te esqueceste do escândalo infundado que publicaram quando eu abandonei a Delfina no altar porque a Flor e o Afonso estavam a correr perigo DE VIDA, no meio de um velho barracão em chamas? Por isso, já tens uma boa justificação para lhes dar – disse Frederico.
‐Tudo bem, eu dou‐lhes o recado. Também vou buscar as vossas malas, e levo tudo já para casa – sai.
Então, Flor e Fred foram para o hospital fazer os exames, cujos resultados ficaram prontos ainda nessa noite.
Mal entraram em casa vindos direitinhos do hospital, sabendo já os resultados,
depararam‐se com uma festa enorme de boas‐vindas preparada pelos miúdos com uma ajudinha de Sebastião.
‐SURPRESA! – gritaram todos, ao que Martim acrescentou:
‐Vocês vêm com um ar muito suspeito. O que é que se passa?
Então, Fred e Flor apresentaram a sua surpresa, num estilo rap.
Fred: «Chegámos a casa
Lar doce lar
E as nossas aventuras
Contaremos a rapar.»
Flor: «Lamentamos desde já
Alguma atrapalhação:
Acontecimentos de última hora
Forçaram a uma alteração.»
Fred: «Logo a primeira noite
Não a podemos contar
Mas como é segredo
Já a devem calcular.»
Flor: «Visitámos muitos sítios
Do Zoo ao Muro de Berlim.
Eram tantos, tantos, tantos
Que pareciam não ter fim.»
Fred: «Agora hoje à tarde
A Flor teve uma quebra de tensão;
Nada que não se resolvesse
Sem grande atrapalhação.»
Flor: «Como já é noite dentro
Não nos alongamos mais.
Só vos temos a dizer…»
Fred e Flor: QUE VAMOS SER
PAIS!
A família ficou eufórica. Todos, sem excepção, felicitaram Flor e Frederico e, no jantar, a grande novidade foi tema de conversa. Pouco depois, foram‐se todos deitar. Flor e Fred foram para o antigo quarto de Delfina, que remodelaram por completo a seu gosto.
‐Frederico – pergunta Flor, já na cama ‐, achas que é agora que vamos mesmo ser felizes juntos para sempre?
‐É claro que sim, Flor, e nada nem ninguém nos vai separar desta vez. Nada nem ninguém…
Então, beijando‐se, voltaram a envolver‐se e, prometendo que se iriam amar eternamente, adormeceram abraçados.
Epílogo: Dez anos mais tarde
Flor e Frederico acordaram nos braços um do outro, mas maldispostos, ao som do último êxito dos Tokio Hotel.
‐Bom dia – diz Frederico. – Como é que dormiste?
‐Mal. Estes três volta e meia convidam os amigos todos cá para casa e é uma barulheira que não se podo. E depois quando dão uma festa do pijama…
‐Deixa lá. Eles organizam‐se sempre da mesma maneira e por isso é que é assim todas as vezes: o Diogo convida os amigos, a Margarida revolve a casa toda à procura de posters e de
CD’s, dando preferência ao rock (estás a ver?) e o António vai assaltar a despensa e o frigorífico para tratar da alimentação. Tenho mas é de ir lá baixar o som.
Então levanta‐se, veste o roupão e vai para o quarto de Diogo, o mesmo que Fred ocupou em miúdo, para meter a música da festa organizada pelos filhos mais baixa.
‐Pai – diz Margarida ‐, não te dissemos que não queríamos adultos na nossa festa?
‐É sempre assim – acrescentou António. – Não houve uma única festa que nós déssemos sem um único adulto a incomodar.
‐Já pareces os políticos – exclamou Diogo. – Prometem, prometem mas não cumprem.
‐Ah então é assim? Então estão proibidos de meter música à noite.
‐Mas… ‐ disse Margarida.
‐Mas nada – disse Frederico. – Estava a brincar. Só vim cá dar dois recadinhos:
António, como roubaste um frango do jantar de ontem, vou descontá‐lo na tua próxima mesada. Margarida – diz para a filha enquanto que baixava o som da aparelhagem ‐, para a próxima põe o som mais baixo e não metas só rock, que eu e a tua mãe já estamos fartos de acordar com os Tokio Hotel a altos berros.
Entretanto, Flor surge à porta. Frederico deixa os filhos e vai ter com ela.
‐Conseguiste metê‐los no lugar.
‐Sim. Mas desta vez foi mais difícil do que de costume.
‐Já disse que te amo, hoje?
‐Não. Amo‐te.
E beijam‐se sob os olhares curiosos dos filhos e amigos.
Estes já tinham ouvido falar da enorme intensidade desse amor, mas a ideia que lhes vinha à cabeça não chegava aos calcanhares da realidade, que finalmente compreenderam.
Nesse momento, Diogo, Margarida e António correram a abraçar os pais, que os pegaram ao colo, apesar das idades “avançadas” desses três (nove, sete e seis anos de idade, respectivamente). Pois eram a família perfeita. E essa família era perfeita porque era feliz. E só eram felizes porque amavam‐se. E era o Amor que lhes dava força e alento para vencerem as dificuldades. Por isso, mereceram o destino que tiveram, no bem e no mal, na vida e na morte, permanecendo fiéis uns aos outros até ao fim.
 
 
E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE
 
 
FIM



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